segunda-feira, 4 de junho de 2012

La Concejala Antropófaga

"E proponho aos cidadãos que experimentem em suas casas, porque não há nada mais democrático que o prazer."

Carmem Machi incorpora "La Concejala Antropofaga", curta-metragem de Pedro Almodovar. Filme de riso fácil em que a personagem desbocada faz um monólogo divertido, bizarro e, por que não, de um prazer peculiar. Feito entre um intervalo e outro de "Abrazos Rotos", em 2009, o filme da vereadora antropófaga foi inspirado na própria personagem de Machi no longa-metragem. Uma aparição de três minutos foi tão grandiosa e estimulante para o cineasta que ganhou um curta à parte. O prazer como bem social configura a bandeira de luta dessa divertida personagem, dessa faminta, insaciável  e divertida personagem. 

Curta com legenda em inglês clica aqui. 


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Palhaço

Direção: Selton Mello

Produção: Vânia Catani e Selton Mello

Roteiro: Marcelo Vindicatto e Selton Mello

Eu poderia dizer que esse é um filme de Selton Mello, mas seria desmerecer demais um trabalho tão grandioso e feito por tantos corpos juntos. Ao mesmo tempo, seria injusta em não vangloriar um pouco o cara, Selton foi de fato um profissional por inteiro nesse longa, que por sinal, é uma belíssima produção para o cinema nacional.

“Parabéns Selton, tem brilho no seu filme, tem alma e paixão”. É, acho que eu falaria isso ao ator, caso o encontrasse por aí. Com um grandioso e privilegiado elenco, uma das mais recentes obras brasileiras se reveste de cor e de poesia. No interior do país, um circo é o palco para os conflitos internos, as situações corriqueiras e comuns ao mundo dos picadeiros e às relações humanas. Dentro desse cenário, Benjamim (Selton Mello), o palhaço Pangaré, reflete se é nesse mundo que ele gostaria de seguir sua vida. Paulo José incorpora o palhaço Puro Sangue, Valdemar, pai de Benjamim, e juntos, pai e filho, tocam o circo e tentam resolver a cada dia os problemas dos demais integrantes dessa família de artistas.

Não quero me estender na história, porque, na verdade, esse é um filme dos personagens, são eles que tomam o roteiro, dançam nas falas, expõem seus sentimentos e desnudam o ser humano, com suas sensibilidades, dores e saudades. Ainda tem um ponto importante, o principal e maior desencadeador de sentimentos é o olhar, personagem tão importante no drama. Esse nos preenche de vida e nos dá a certeza da grandiosidade do longa que estamos presenciando. Em algumas cenas, fiquei me perguntando se os brilhos nos olhares eram para os personagens, ou eram os atores que se deliciavam em encenar o que ali acontecia. A fotografia só reafirma a beleza de “O Palhaço”, enquadra as emoções e capta a essência de amar o que se faz.

A saga de Pangaré na busca pelo seu “eu” nos encanta, certamente, com humor, drama, poesia e leveza. Leveza mesmo, dessas que nos tiram da sala de cinema à força, porque a vontade mesmo era de ficar ali, junto com Puro Sangue, Pangaré, palhaço Borrachinha, Meio-quilo, Juca Bigode, Tony Lo Bianco, Guilhermina, Gordini, Dona Zaira, Chico Lorota, Lara Lane, Justine e Nei. Não vá esperando uma comédia escancarada, é de sentimentos vividos que estamos falando, poesia na certa, de aplausos de pé.

Se prepare, caso sejas uma manteiga derretida feito eu, não duvide que escorra algumas lágrimas no letreiro final.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

The Elephant Man (O Homem Elefante)

O preto e o branco da obra de David Linx nos retratam a história sofrida de um homem que viveu de dores e sonhos em uma sociedade movida pelas aparências. E esse personagem real nos deu um novo significado à beleza na vida.

Assim que comecei a ver o Homem Elefante sabia que algo de espetacular e especial estava a minha espera. Revolução Industrial, sociedade inglesa do século XIX, John Merrick como uma das atrações do circo dos horrores. Com 21 anos, o Homem Elefante tinha uma vida que ninguém desejaria a ninguém. David Linx saiu um pouco do seu padrão de filmes alternativos e abstratos para pisar em um campo mais duro, real e lindo. Se emocionar com o longa é um lugar comum, as cenas fortes, a fotografia linda e a triste historia real se misturam em um amontoado de surpresas e de angustias. Isto me faz dizer que esse é um dos melhores filmes que eu já vi. Ao longo da obra, não há como não se apaixonar pelo jovem com o corpo todo deformado e de sensibilidade transbordando nos olhos desesperançados. David fez o encontro do sensível com o horror. Do horror com a beleza. Da beleza com a tristeza. Aos poucos vamos desvendando John, vamos nos afeiçoando por ele e, assim, deixamos as lágrimas escorrerem.

Simplesmente um filme incrível, de aprendizado e de se querer o bem. Uma obra que nos deixa reflexões, fantasias e assim se faz ser lembrada. Sim, repito, um dos melhores. E se em cada cena me pergunto como essa historia pode ser real, porque ela é, não saberia explicar tamanha grandiosidade se ela não fosse.

O Homem Elefante nos deixa a sensação de que existe algo de singelo em todos os lugares, em cada um de nós e em cada sentimento. Jonh Merrick foi um grande homem, o homem elefante é um grande filme e com certeza ficará na mente de quem o veja. Uma produção que faz a gente se confrontar com os nossos próprios julgamentos, nossos preconceitos e nos leva para uma viagem pertinho de um mundo interior único, único como cada um é, seres humanos que somos, apenas seres humanos, e incríveis.

O trailer, pra quem é de trailer.

domingo, 11 de setembro de 2011

11 de setembro de 1973

No dia que é lembrando muitos dias antes de sua chegada, trago o curta metragem do diretor britânico Ken Loach.

E não, o tema central não é o 11 de setembro de 2001 dos EUA (que também considero um triste dia na nossa história, porém existem outras discussões). Nesse post, o foco é o 11 de setembro de 1973 no Chile. E esse, além de triste e terrível, foi desumano e atingiu trabalhadores e trabalhadoras chilenos em um dia que marcou a trajetória da luta popular no mundo.

Em 1973, o então presidente chileno Salvador Allende Gossen, socialista e eleito pelo voto popular, sofreu um golpe do chefe das forças armadas chilenas, Augusto Pinochet, que com o apoio do governo americano e financiado pela CIA e pelas transnacionais norte-americanas, instalou o caos em um único dia da história e que vem perpetuando suas dores e tristes lembranças até hoje, 38 anos depois. Anos esses que só tendem a se redobrar, pois um acontecimento assim não é esquecido, a dor é sentida de longe, tanto em tempo como em espaço.

Infelizmente, esse 11 de setembro latino-americano pouco é lembrado, mas Ken Loach o concebeu em uma produção de quase 11 minutos e fez o trágico acontecimento de 1973 ganhar trilha, vozes, depoimentos, cenas e a dor, como ela bem foi difundida nesse dia. Originalmente feito para compor uma mostra de curtas que abordariam o acontecimento do ano de 2001, Ken levanta a trágica e covarde batalha contra a democracia e o povo chileno concretizado anos antes das Torres Gêmeas serem atacadas.

O curta lançado em 2002, ano no qual o 11 de setembro americano faria 1 ano, merece ser difundido e conhecido. Esse acontecimento histórico em forma de produção nos aproxima da luta e da necessidade de se conhecer cada vez mais a história e abrir as portas para causas e lutas justas, populares e que tragam autonomia, dignidade e força para qualquer trabalhador e trabalhadora em qualquer lugar do mundo.

"Eu sempre tenho confiança na inteligencia do povo. Então, se o povo organizado é inteligente, por que deveríamos ter medo de uma organização popular?" - Costureira Chilena em uma das falas do curta.


sábado, 13 de agosto de 2011

Bem-vindo à Casa de Bonecas (Welcome to the Dollhouse)

Welcome to the Dollhouse é um longa metragem americano de 1995 dirigido por Todd Solondz. Nu e simples, é um bom convite ao drama e ao humor, mas antes de tudo, ao real.

A cena fechada na foto de uma típica família americana é a porta de entrada para um filme que foge da conduta hollywoodiana tradicional. O duro e o real estão ai, usa óculos, rabo de cavalo e se chama Dawn, uma garota de onze anos e meio. Rejeitada na escola e não compreendida em casa, a protagonista se vê em situações humilhantes e que a fazem se perder dentro de si.

Os cenários são basicamente a escola, a casa e alguns pontos externos. Engraçado que nesses pontos, que aparecem uma vez cada, se me lembro bem, são formados por cenas que montam uma personalidade mais doce de Dawn, aí podemos conhecê-la melhor. Boa parte desses momentos são compartilhados com seu colega de classe Brandone, com quem ela tem uma curiosa relação.

Como toda boa pré-adolescente, a garotinha feia e de óculos se apaixona, beija, briga, machuca, é machucada e vive, mas não vive um sonho, nem uma reviravolta de vida.
Todd Solondz fez questão de colocar tudo como deveria ser, sem fantasias, sem enfeites. Somente a frustração do isolamento, da busca de uma colocaçõ social.

Welcome to the Dollhouse é um pouco de Dawn, da essência humana, e, não se assuste, mas vc pode identificar nos persongens pessoas que já passaram pela sua vida também.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

José e Pilar

Quando li “Ensaio sobre a cegueira”, fiquei imaginando como seria o gênio por trás do sotaque português. Sem dúvida, deveria ser alguém bem interessante de se conhecer e bater um papinho em um fim de tarde.

O documentário “José e Pilar” me mostrou um Saramago do jeitinho que eu pensava: intelectual, engraçado, humano e sensível escritor. De quebra, veio acompanhado de sua mulher e amada, Pilar. Outro ser humano fantástico que tive muito prazer em conhecer. (...)
Placa da Rua Pílar Del Río, que cruza com a Rua José Saramago em Azinhaga, Portugal.

A intensa vida do casal é representada em lindas fotografias, diálogos prazerosos, inteligentes e divertidos. É o dia a dia, são os pensamentos e, principalmente, o amor. Mais de duas horas de filme que nos levam a reflexões e nos desnudam em frente a dois seres sensíveis e fortes. Despertam o choro e o riso, em passagens doces, descontraídas, fortes.
Vemos o trabalho em cima de seus romances, a agenda cheia de eventos e formalidades. A doença maldita, o recuperar esperançoso. A vida que é vivida, mas que sabemos, e ele mais do que todos, que tem uma data certa para chegar ao fim. E ai não existe espaço para o medo.
José e Pilar, Pilar e José. A ordem dos nomes não carrega importância. Vemos dois protagonistas. O diretor Miguel Gonçalvez Mendes trouxe à tona a personalidade de ambos, de maneira simples, real. Temos uma produção grandiosa, imagens que ultrapassam a questão da beleza e uma trilha musical agradável e romântica, como ela bem merecia que fosse.
Melhor ainda é descobrir que por trás desse belíssimo filme, existem toques conhecidos e que a gente, então, entende o porquê do resultado final ser tão rico. Fernando Meirelles é um dos grandes nomes os quais posso citar, o restante vocês podem conferir aqui.
Ainda bem que José Saramago e Pilar Del Río ousaram um dia se encontrar. Nos presentearam com romances, inspirações, sonhos...com a vida, na sua mais bela concepção.



segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Viajo porque preciso, volto porque te amo

“Viajo porque preciso, volto porque te amo” poderia ser o título de uma música, um poema ou simplesmente uma curta declaração de amor. Mas o pernambucano Marcelo Gomes e o cearense Karim Ainouz resolveram transformá-lo em um peculiar e inovador longa metragem.

Depois de dez anos de trabalho, os dois diretores resolveram mesclar imagens de um diferente sertão a uma boa narrativa atrelada a um universo real. São cenas duras que se transformam em poesia audiovisual de extrema simplicidade, como a despretensiosa filmagem de uma senhora fazendo rosas de espumas. Os cineastas poderiam utilizar as gravações para retratar qualquer enredo, ou história nenhuma, mas elas são unidas às confissões do personagem principal, o geólogo José Renato, e aparecem para despertar sensações e encantamento. Uma idéia original e simples.

José embarca em uma viagem a trabalho pelo sertão nordestino, esse é seu objetivo racional. Logo percebemos, intrínseco em sua história, a questão emocional: a saudade da sua ex-mulher, a dor do abandono. O desabrochar do filme é acompanhado de músicas ditas como bregas, próximas ao lugar-comum do amor sofrido. Essa proposta se encaixou bem ao contexto, criou realismo e possíveis identificações junto ao público.

Na obra, temos traços de documentário e ainda da ficção. Dentro desses formatos, encontramos um tom poético de uma historia de amor. As cenas, muitas vezes desfocadas e de tom caseiro, nos remetem a uma abstração. O que nos puxa para dentro do enredo é a narrativa de José, quebrando também alguns momentos de monotonia. Captamos suas dores, seu trabalho, sua paixão. O personagem permanece em uma intensa reflexão individual, traço caracterizador das obras de Marcelo e Karim.

A solidão constante do personagem aparece em forma de prosa e nos aproxima de sua história, nos emocionando. José cria diálogos unilaterais e ao mesmo tempo mostra seu desejo de esquecer a paixão sofrida. Temos, então, os traços antagônicos da obra: o amar e a vontade de “desamar”, o amor e o ódio, a viagem que o leva para trás e o esquecer que só o faz lembrar. As palavras saem verdadeiras, espontâneas e de sotaque tão original que o filme toma uma forma natural e forte. Por não vermos José, somos guiados por uma liberdade imaginativa, como na leitura de um livro. Fica ao nosso cargo desenhar e imaginar o homem que nos envolve em sua viagem de lembranças.

É um filme simples, de raízes, como um trabalho artesanal feito pelas mãos conjuntas de dois inovadores. A liberdade de criação é tão intensa que Marcelo define bem sua direção: “Uma viagem que se tornou uma história de amor ou uma história de amor que se tornou uma viagem”. No fim das contas, uma junção de imagens e sentimentos falados e sonhados em forma de prosa e saudade.